"Bibi - Histórias e Canções" no Teatro Net Rio 

 

 

Atriz celebra seus 90 anos no palco

 

Tradicional palco carioca por onde passaram grandes nomes da música popular brasileira e do teatro nacional, o antigo Teatro Tereza Rachel, agora chamado Theatro Net Rio, reabriu na noite desta quarta-feira com a estréia para convidados de “Bibi”, espetáculo em que Bibi Ferreira comemora os 90 anos de idade e 70 de carreira. Dezenas de artistas compareceram ao show da atriz ecelebraram a recuperação da casa, como Ary Fontoura, Marília Pêra, Ney Latorraca, Gilberto Gil, Beth Carvalho, Diogo Vilela, Miguel Falabella e Christiane Torloni2

Estrela da noite, a atriz e cantora era uma das mais alegres na volta ao palco em que brilhou ao protagonizar, em 1975, a histórica montagem de “Gota d’Água” dirigida por Gianni Ratto. “Eu não sou uma pessoa de voltar ao passado e ter saudades. A estreia de ‘Gota d’Água foi aquilo em que eu menos pensei. Mas, na hora em que cantei a música, veio uma grande emoção”, contou ela, cuja temporada começa nesta sexta-feira.

No show, além do clássico de Chico Buarque, ela cantou temas de musicais americanos, “Non, Je ne Regrete Rien”, “L’Hymne à L’Amour” e “La Vie en Rose”, músicas que se tornaram célebres na voz de Edith Piaf, e “Eu Sei que Vou Te Amar” acompanhada de orquestra. Um dos pontos altos, porém, foi o resgate de uma brincadeira de infância em que Bibi cantava trechos famosos das as óperas “La Traviata” e “O Barbeiro de Sevilha” com as letras de sambas e marchinhas de carnaval.
Inaugurado em outubro de 1971 pela atriz que lhe emprestava o nome, o antigo Teatro Tereza Rachel recebeu artistas como Luiz Gonzaga, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo Gracindo, Marília Pêra e Sérgio Britto durante mais de duas décadas de funcionamento. Entre 2001 e 2008, durante o período em que o teatro esteve desativado, seu espaço foi usado por uma igreja evangélica e, posteriormente, para ensaios dos musicais concebidos pela dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. Tombado desde 2004 pela prefeitura do Rio, o teatro foi arrendado pelo produtor cultural Frederico Reder e reformado. Passou a ter duas salas: a Tereza Rachel, com quase 800 lugares, e a Paulo Pontes, com 200 assentos.

 

Reproduzido de: Globo Teatro

 

 

 

 

"Bibi - Histórias e Canções" - Video do Ensaio Final :  AQUI

 

Via Maestro Flávio Mendes

 

 

 

 

Bibi Ferreira ainda é uma garotinha

 

Ela entra em cena enquanto a orquestra toca "Malandragem", o sucesso de Cassia Eller, composto por Frejat e Cazuza. A ironia é evidente. Aos quase 90 anos (o aniversário é no dia 1 de junho), é  uma piada ver Bibi Ferreira enquanto se ouve "quem sabe eu ainda sou uma garotinha". Não é necessário muito tempo para se perceber que não há piada alguma. Bastou ela cantar a primeira canção do show de reinauguração do Teatro Tereza Rachel, nesta quarta-feira, no Rio, para a plateia perceber que, no palco, Bibi é mesmo uma garotinha. Foi emocionante. Canções de velhos musicais, sucessos da Broadway, o melhor da música brasileira ("Nossos momentos" é lindo), Piaf e, principalmente, um pot-pourri de números do "Gota d´água" que fez o público chorar. Bibi remoça pelo menos 60 anos em cena e mantém o bom humor em delicioso papo com a plateia. O show deve ficar três meses em cartaz. Não dá para deixar de ver a história do teatro brasilero em cena.

 

ArturXexéo

 

 

 

 

 

Foto reproduzida do Facebook de Deolinda Vilhena

 

 

Texto de Deolinda Vilhena

 


Em 1972 assisti ao Homem de la Mancha com Bibi Ferreira, Paulo Autran e Grande Otelo dirigidos por Flávio Rangel. Tinha 12 anos de idade e queria ser médica: ginecologista e obstetra. Sai do teatro comunicando à família que havia mudado tudo: iria fazer teatro para trabalhar com Bibi Ferreira. Foi o que fiz. Faço teatro e trabalhei entre março de 1981 e dezembro de 1997 com Bibi Ferreira nas mais diversas funções e não é de hoje que afirmo que é a MAIOR ATRIZ não do Brasil mas a MAIOR ATRIZ QUE EU JÁ VI EM CENA. E eu vi em cena Dulcina de Moraes, Eva Todor, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, Jacqueline Laurence, Mariana Lima, Dani Barros, Juliana Carneiro da Cunha, Claudia Cardinalle, Jeanne Moreau, Annie Girardot, Hanna Schygulla, Shirley Mac Laine, Fanny Ardant, Liza Minelli e vai por ai para citar só algumas das mais importantes e nascidas em países diversos...e é com um enorme prazer que vejo a academia na figura de Luiz Fernando Ramos se curvar diante do TALENTO único dessa que é sem sombra de dúvidas a maior atriz que pisou os palcos desse país...Viva Bibi Ferreira...

 



São Paulo, domingo, 06 de maio de 2012

 

 

 


 

 

 

"Bibi - Histórias e Canções"



Comovente, musical celebra os 90 anos da diva Bibi Ferreira

Amparada por orquestra, cantora dá mostras de todo o seu carisma e presença cênica em "Histórias e Canções"

É notável como, sem nenhuma partitura a sua frente, a artista desfile tão vasto repertório



LUIZ FERNANDO RAMOS


CRÍTICO DA FOLHA


Cessa tudo quando a antiga diva canta. "Bibi - Histórias e Canções", espetáculo que celebra os 90 anos de Bibi Ferreira, coroa a carreira única no teatro brasileiro e atualiza o reconhecimento de um talento extraordinário.

Concebida por Bibi, em parceria com Nilson Raman e João Falcão, e dirigida por este último, a encenação se vale do carisma da atriz.

Sua presença cênica, como uma entidade que alcança a condição de mito em vida, arrebata desde o momento em que ela surge em meio a uma orquestra de 26 músicos.

Nos 80 minutos seguintes, o público se embevece com uma sequência de blocos temáticos que mesclam várias canções, o que só dificulta a interpretação, pois exige modulações harmônicas complexas na variação ininterrupta das músicas.

Bibi encara essas transições com tranquilidade, sem abrandar seu timbre forte e sem perder a afinação perfeita. Verdade que a direção mantém o maestro e o arranjador das orquestrações, Flávio Mendes, próximo dela.

Como um ator coadjuvante, ele dialoga com Bibi e dá a deixa para cada uma das sessões. Mesmo assim, é notável como, sem nenhuma partitura a sua frente, a artista desfile tão vasto repertório, que vai de antiquíssimos musicais de Hollywood até sambas de breque.

Nas poucas vezes em que ela hesita na recordação de alguma letra, a leveza com que assume o erro, e retoma sem temor o canto, denota a tarimba da tradição de improviso do teatro popular.

Bibi Ferreira sintetiza na sua trajetória tanto uma teatralidade brasileira que remete ao século 19 e seus grandes atores carismáticos, como às formas dos últimos 60 anos.

Esse trânsito fluente entre tempos e registros distintos se confirma no momento mais emocionante do espetáculo, quando evoca o musical "Gota d'Água", de 1975, adaptação da "Medeia" de Eurípides de seu falecido marido, o talentoso dramaturgo Paulo Pontes (1940-1976), com composições dele e de Chico Buarque de Holanda.

Expressa-se também quando apresenta suas paródias de árias de óperas famosas, em que encaixa Lamartine Babo e Pixinguinha em melodias de Verdi e Rossini, ou quando repropõe o "Samba de Uma Nota Só", de Tom Jobim, com letra de Noel Rosa.

O espetáculo é um acontecimento. Consagra uma artista ímpar que elevou seu ofício, em sete décadas de prática, à condição de arte maior.

 

 

Crítica de Luiz Fernando Ramos publicada hoje, 06 de maio de 2012, na Ilustrada, da Folha de São Paulo.

 

 

 

 

"Bibi Ferreira - Histórias e Canções" na visão de uma querida amiga, Eliana Caminada, que gentilmente me permitiu reproduzir suas impressões aqui no site.

 

 

"Angela, fui, finalmente, ver Bibi. Estou em estado de graça. Bibi em cena não é descritível por palavras. Ela é o palco, ela é a cena. Maravilhosa. E ali estava toda a minha infância, as coisas que meus pais amavam e me ensinaram a amar.

É meu sentimento pela arte da Bibi. Meus pais a amavam desde sempre. Eles eram amigos de Paschoal Carlos Magno e conheceram Bibi na casa dele. 
Bibi, na minha vida, começou muito cedo."

Eliana Caminada

 

Rio de Janeiro, 22 de junho de 2012

 



Eliana Caminada é Orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique". Site Oficial: http://www.elianacaminada.net/

 

 

 

 

"O amor é para gente jovem", afirma Bibi Ferreira

 

Publicado na Folha.com  27/05/2012

 

ELEONORA DE LUCENA


DO RIO

 

Ela chega de mansinho. Toda de preto e com os indefectíveis óculos escuros. Escolhe a cadeira de linhas retas. Dá uma bebericada no refrigerante servido na taça. Está muito gelado, reclama. O Pão de Açúcar está tão perto que parece invadir as janelas da sala cheia de flores. Um arco-íris rasga a baía de Guanabara.

É fim de tarde, e Bibi Ferreira não presta atenção nesse cenário que conhece bem. Na próxima sexta, ela completa 90 anos, mas não vai dar festa. "Sabe aquele negócio da madrinha da Bela Adormecida? Pode acontecer de eu ficar cem anos deitada porque não convidei a pessoa certa! Não quero festa."

Grande dama do teatro brasileiro, ela começa falando bem baixinho, para cuidar dos músculos da garganta. "Minha vida é simples. Acordo e tomo qualquer coisa. Faço o que tenho que fazer e descanso. Por isso, engordo com facilidade. Só como aquilo que engorda. Meu grande problema é o corpo. É uma tragédia shakespeariana."

 

 

 

 

Fã de literatura inglesa e de cinema, ela adora o filme "Capote", de 2005. "Toda a semana toco a ver. A interpretação de Philip Seymour Hoffman é uma das melhores que já vi, pois usa toda a possibilidade física: é a forma de andar, de olhar, principalmente de falar. É um trabalho primoroso. Fico olhando esse homem representando e fico estudando, aprendendo."

 

RETRAÍDA

 

Aprendendo aos 90 anos. Foi com 24 dias de vida que Abigail Izquierdo Ferreira subiu ao palco pela primeira vez. Tomava o lugar de uma boneca que se perdera na coxia do espetáculo "Manhãs de Sol", de Oduvaldo Vianna. Seu pai, o lendário Procópio Ferreira, iniciava a carreira de ator.

Com a mãe, a corista Aida Izquierdo, estreou em Santiago num teatro de revista. Tinha três anos. Aos 14, dançava em óperas no corpo de baile do Theatro Municipal do Rio e compunha música clássica.

Atriz, bailarina, cantora, compositora, diretora. Carismática e talentosa, não parou mais. "Sempre fui retraída. Só não sou assim no palco. Lá, perco a inibição. Nunca fui encaminhada para fazer carreira. Era uma moça como qualquer outra daquela geração. Todas estudavam piano, francês e dança. Minha mãe trabalhava muito para pagar os meus professores, e eu estudava o que fosse possível para a minha mãe ficar feliz."

E o que é importante para ser um ator? "A primeira coisa é saber se ele tem voz. O microfone colocado hoje nos atores fica muito ruim porque eles perdem o brilho. Nunca trabalhei com microfone. Não tenho necessidade. Deus me deu uma voz muito forte, muito boa. Mas tem também a técnica, a respiração, força no diafragma", explica.

Sobre exercícios, Bibi conta que faz todos os dias o roteiro da Força Aérea Canadense. O método foi lançado em 1958 no livro "Mantenha-se Fisicamente em Forma", que vendeu mais de 23 milhões de exemplares no mundo. Nele, o cientista e atleta Bill Orban propunha uma pequena série de exercícios diários, sem equipamentos.

"Aquilo é maravilhoso. Em dez minutinhos, resolve todos os problemas, envolve todos os músculos", diz Bibi.

 

CENSURA

 

A noite vai chegando e a voz da diva está mais forte. Os carros que chispam no aterro do Flamengo não conseguem abafá-la. Como ela se prepara para entrar em cena? Usa o método Stanislavski?

Bibi não complica. "Tenho uma rotina obrigatória. Gosto de chegar com calma ao teatro para ter mais concentração. Preciso ter uma paz de duas horas dentro do camarim. Eu fico muito triste e nervosa quando estou atrasada."

No palco, sua personagem mais forte foi a Joana de "Gota d'Água", peça de 1975, de Chico Buarque e Paulo Pontes --então marido de Bibi. "É o texto mais importante da dramaturgia brasileira. A censura cortou tanto que ficou uma coisa leite com água. Depois, o Paulinho conseguiu trazer de volta determinados cortes."

Na ditadura, Bibi foi ao general Médici pedir a regulamentação da profissão de artista e um desafogo na censura. "No militarismo, eles não entendiam nada. Como ninguém nunca entende de teatro, a não ser quem pisa no palco", diz.

Bibi sente falta daquela "fase muito rica da dramaturgia brasileira, com Vianinha, Plínio Marcos, Paulo Pontes. Não tem aparecido uma safra fértil", reclama.

Musicais da Broadway, comédias, textos clássicos --quase tudo já foi alvo do trabalho de Bibi, que dirigiu e atuou com os monstros do teatro e da música. "De teatro de protesto eu não gostei muito. Porque o protesto muda de mãos. Hoje, você está a favor do comunismo, amanhã, não. O público é um só. Você tem que agradar", defende.

Ela conta que aprendeu essa filosofia com o pai. "Ele me dizia que há coisas em que você não pode tocar no teatro: futebol, política e religião."

Autora de "Bibi Ferreira: a Trajetória Solitária de uma Atriz por Seis Décadas do Teatro Brasileiro", a jornalista Deolinda Vilhena avalia que "falta ousadia" à atriz. "É a maior atriz que eu já vi em cena. Diante do seu talento, não consigo entender a opção por um repertório comercial e de divertimento", declara Deolinda à Serafina.

O texto, tese de mestrado de 2001 na USP, causou a ruptura entre a atriz e a jornalista, que foi assessora de Bibi por 17 anos e é atualmente professora de teatro da Universidade Federal da Bahia.

Segundo Deolinda, o motivo da discórdia foi a citação de críticas desfavoráveis ao pai e à filha da atriz. Hoje há paz entre elas. "Ela é como uma mãe para mim", diz.

 

SUPERDOMÉSTICA

 

Intérprete de mulheres fortes, como Edith Piaf e a Joana de "Gota d'Água", Bibi não quer saber de feminismo. "Acho que a mulher nunca é feliz sem ter uma hora para ficar esperando pelo marido em casa. Sou superdoméstica."

"A mulher que quer muita liberdade acaba se perdendo. É feito o Noel [Rosa]." E cantarola "Feitio de Oração": "Quem acha vive se perdendo".

Bibi fala dos seus cinco casamentos e diz que foram todos muito bons. E, hoje, tem vontade de namorar? "Não! Seria ridículo na minha idade. Tenho minhas vaidades. Depois de uma certa idade, eu não poderia mais inspirar isso num homem. De jeito nenhum. Embora eu tenha todos os dentes, seja desbarrigada. O homem só gosta é da juventude. O amor é para gente jovem. 'Love is young'. Fora isso, há amizade, compreensão."

Qual é o seu maior prazer hoje? "Pão francês, se possível com manteiguinha com sal. É a única coisa de que eu gosto para valer. Quase sempre falta aqui em casa e eu dou grandes broncas, fico uma fera."

A noite já caiu e Bibi concorda que a vista é linda. "Isso aqui é uma dádiva de Deus. É porque eu mereço." Ficou rica com o teatro? "Não. O que me deu uma base na vida foi a televisão em São Paulo. Ganhava-se bem e tínhamos um percentual dos patrocínios. Foi assim que eu comprei a minha primeira casa, que virou essa."

Nos anos 1960 e 1970, Bibi atuou na então TV Excelsior em São Paulo. Depois, passou por várias emissoras. É um raro caso de atriz de sucesso que nunca participou de novelas. Recusou todos os convites: "Não dá tempo para mim". Telespectadora e noveleira, ela sente falta da música na TV. "Antigamente, as TVs tinham as suas orquestras. Dava muita categoria."

"O teatro pode dar muito dinheiro, a mim nunca deu. Não tenho rendas, tenho que trabalhar. Mas eu gosto de trabalhar. Tenho saúde e amor para isso. Gosto de entrar no palco."

"Não sou cantora. Sou uma atriz que afina e canta", diz. Ali mesmo, no cantinho da sala, ela canta trechinhos de "Nossos Momentos", de Luiz Reis e Haroldo Barbosa, e de "La Vie en Rose", de Edith Piaf, figura que encarna há décadas.

A sua vida é cor de rosa? "É", responde.

Planos? "Não tenho planos. Tenho agenda de trabalho.

Vou fazer o espetáculo  "Bibi - Histórias e Canções", em cartaz no Rio e talvez gravar um disco para crianças no Natal."

 

 

 

 

 

Bibi Ferreira: Histórias e Canções

 

Blog La Critique - by Cesar Paulo


28 05 2012

 

Foto de Rodrigo Amaral

 


Não sei se consegui descrever abaixo o que, mais do que vi, eu vivi. É uma honra para todos nós sermos contemporâneos de Bibi Ferreira, e uma honra maior ainda ter a oportunidade de vê-la nos palcos, ao vivo. Eu ainda tive o prazer de conversar com ela pessoalmente! Quanta honra. Só tenho a agradecer por isso. Abaixo está o texto onde tento descrever o que presenciei. Não creio ser possível, mas eu tentei:
Bibi Ferreira: Minhas Histórias e Minhas Canções
Não sou muito de frases prontas, mas o “faça aqui e agora” é um pouco o meu lema. Se há possibilidade de fazer, ainda que mínima, faça, ou pelo menos tente fazer. Assistir Bibi Ferreira cantando ao vivo era um sonho antigo, até desacreditado. Até que fiquei sabendo da nova turnê e resolvi: tenho que ir. Não podia ter decidido melhor.
O show “Bibi – Histórias e Canções” soma grandiosidades: Bibi Ferreira aos 90 anos de idade comemora 70 anos de uma irretocável carreira, e o Theatro NET Rio reabre as portas do antigo Terezão. O teatro foi reformado de maneira primorosa. Atenção a todos os detalhes, tudo muito bonito, temático. Do uniforme estilo anos 70 à decoração do banheiro, voltamos no tempo em uma visita a era de ouro do teatro carioca.
Depois de ter a felicidade de trocarem meus lugares, que eram no balcão, para a platéia, bem próximo ao palco, eu estava feito criança esperando o Papai Noel: A cortina vermelha estava ali, à minha frente. O canhão de luz iluminava o centro do palco: Bibi estava chegando! A cortina se abre e a orquestra a postos executa a música Flor da Idade, de Chico Buarque, depois Malandragem, de Cazuza.
Quando Bibi entra no palco a energia do local vai a mil. Os aplausos são tão constantes durante o show quanto sua voz e o som da orquestra. Bibi recebe o público, mostra sua simplicidade de sempre agradecendo a todos pela presença e começa brincando, como faz por todo o show, falando sobre seu amor por Hollywood e entoa By a Waterfall, com uma voz que impressiona.

Bibi Ferreira: “Aqui no palco eu perco qualquer inibição”
Uma animada Bibi preenche o palco todo em sua grandeza. É impressionante vê-la, aos 90 anos, tão disposta, animada e divertida. Engraçadíssima, nos faz rir o show inteiro. Brinca com os esquecimentos: quando erra alguma letra, fala “A culpa é sempre do maestro, não minha”. Faz piada de sua idade “vocês já perceberam que nas minhas histórias sempre se fala em décadas, mas o que há de se fazer?”. E assim, nos fazendo rir e chorar, ela segue cantando e contando histórias do teatro brasileiro, e de sua própria vida. Feliz, ela comemora: “Meu empresário fechou um contrato. Faremos um show em Nova York em Novembro deste ano. Vamos mostrar que aqui fazemos coisa boa.” Sobre os musicais, revela que há aqueles que ainda quer fazer “Ainda não fiz alguns musicais. Ainda. Pois a esperança é a última que morre”.
No repertório, destacam-se músicas como Alô, Dolly!, do musical homônimo que Bibi montou quando jovem; Nossos Momentos, famosa na voz de Elizete Cardoso; Eu Sei que Vou te Amar, que encerra um pout-porri romântico que leva todos às lágrimas.  Canta também tangos, entre eles Cuesta Abajo, de Gardel.
O momento mais divertido do espetáculo (e o mais espantoso, quando se observa a potência da voz de Bibi) é quando ela canta o Brinde da Traviata e a Cavatina de Fígaro – O Barbeiro de Sevilha, porém com letras de sambas brasileiros, o que resulta em O Teu cabelo Não Nega, Palpite Infeliz e Nega do Cabelo Duro cantadas ao som de músicas de Rossini e Verdi. Tudo maravilhosamente executado pela orquestra do espetáculo.
Destaca-se também a execução de Samba de Uma Nota Só, mas com letra da Canção do Exílio. Minha Palhoça e Conversa de Botequim, quando Bibi convida a todos (e aceitamos) a cantar com ela. Ponteio, de Edu Lobo, ganha versão emocionante em sua poderosa voz.
O ponto alto do espetáculo então, finalmente, chega: Bibi Ferreira canta, no mesmo palco onde cantou décadas atrás, Gota D’água, com direito a solilóquio, trecho da peça e Basta Um Dia para encerrar. Impossível não chorar e aplaudir com mais vigor ainda.

Relembrando sua maior glória na carreira Bibi nos leva ao final do espetáculo cantando Piaf. Ela brinca que em todo show a platéia pede Piaf neste exato momento, e que dessa vez ela resolveu logo incluir. Começa por La Vie Em Rose, onde todos cantamos com ela, e canta também Hymme à L’Amour, encerrando com Je Regrette Rien de maneira forte e emocionante.
No bis, quando já estamos pesarosos pelo final, e boquiabertos pela grandiosidade que presenciamos Bibi da um show de bom humor. Cantando Nem  às Paredes Confesso, de Amália Rodrigues, brinca que esqueceu a letra, para a de cantar e pede ajuda da platéia. Começa novamente, e todos cantam com ela sorrindo “de quem eu gosto nem às paredes confesso…”. Pois eu, Bibi, confesso ao mundo inteiro de quem eu gosto: de você! Muito obrigado por nos brindar sempre com seu talento.

 

 

 

Tribuna da Internet

 

sábado, 16 de junho de 2012 | 15:13

 

 

A diva Bibi Ferreira, aos 90 anos, ensina a viver

Sandra Starling (O Tempo, de Belo Horizonte)

 

 

O título que dou a este artigo nos evoca a adorável comédia teatral de Colin Higgins. Tive a feliz oportunidade de assistir a essa peça em um palco carioca, com a inesquecível e talentosa Henriette Morineau no papel de “Maude”. Essa peça mudou a minha vida. Valho-me dessa lembrança para relatar outra lição de vida que tive, há poucos dias, também em um teatro do Rio de Janeiro. Dessa vez, pela maestria de outra atriz igualmente maravilhosa: Bibi Ferreira.

Bibi completou 90 anos na semana que passou. Ainda totalmente lúcida, firme e genial. Capaz de magnetizar o público por mais de uma hora, cantando músicas que marcaram a sua longa carreira. Indizível.

O ponto alto do espetáculo se dá quando Bibi canta as músicas que Chico Buarque fez para “Gota d’’Água”, que ele escreveu em parceria com o então companheiro de Bibi, o dramaturgo autodidata Paulo Pontes. Para quem não sabe, foi Paulo Pontes quem, juntamente com Oduvaldo Viana Filho, nos idos dos anos 1970, criou “A Grande Família”, que até hoje nos entretém com as peripécias de Lineu, Nenê e agregados.

Bibi viveu com ele o mesmo romance de Maude e Harold. Porém, diferentemente do que ocorre na peça de Higgins, quem morre, na vida real, é o Harold de Bibi. Paulo Pontes faleceu acometido de um câncer devastador, aos 37 anos, no auge do sucesso de “Gota d’’Água”, a maior peça jamais feita na dramaturgia brasileira.

Por uma dádiva do destino, pude ver Bibi cantar “Basta um Dia”, como protagonista daquela peça. Não sabíamos se ela chorava por causa de sua própria dor ou a de Joana, a magnífica Medeia dos miseráveis brasileiros. Inesquecível.

Assistir ao espetáculo me fez voltar à minha juventude em Diamantina. Em uma visita à sua cidade natal, JK foi acompanhado por Procópio Ferreira, pai de Bibi, para uma encenação da qual não me recordo, mas que provocou em mim uma comichão incontrolável: ser atriz. Não sei como, mas fui apresentada ao diretor Vitor Berbara, que havia sido o primeiro a conduzir Bibi em cena. Após ensaio de algum “sketch”, Berbara quis que eu fosse estudar artes cênicas. Ecoam ainda dentro de mim as suas palavras: “Você deveria estar em Nova York”. Isso aconteceu mesmo!

Meu pai, juiz de direito da comarca, abortou essa “sandice”, conforme suas palavras. Como em uma canção de Chico Buarque, “segui a minha jornada”, que me levou para bem longe do teatro…

Nesses tempos em que o tsunami da crise econômica mundial vai se avolumando, e a política continua marcada pela hipocrisia e o total rebaixamento ético, assistir a uma apresentação de Bibi Ferreira é um verdadeiro bálsamo para a alma.

Ela se encontra e se reencontra no palco. Altiva, serena, brinca com a plateia e brinca consigo mesma. Os espectadores, em plena senectude, saem do espetáculo, certamente, com a mesma sensação de arrebatamento que eu tive. Todos, naquele pequeno intervalo de tempo, totalmente mágico, apesar da idade, ainda aprendem a viver. Viva a eterna diva do teatro brasileiro!

 

 

 

 

Bibi Ferreira emociona ao completar 90 anos

Video gravado por Caras, no dia do aniversário de Bibi e encerramento da temporada

do show "Bibi, Histórias e Canções".

AQUI

 

 

 

 

 

 

 

 

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