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   Por Angela Maria Pereira Glavam

 

O ano é 1921. O jovem e ainda desconhecido ator  Procópio Ferreira conhece, no Rio de Janeiro, a bailarina espanhola Aída Izquierdo, naquela época residente na Argentina.

De acordo com o relato da irmã, Alzira, o impetuoso Procópio confessa a sua mãe:

"- Minha mãe, estou apaixonado pela mulher mais bela do Brasil. Uma jovem de 15 anos!

- Oh! Meu filho, pobre e feio, qual moça que te quer?

- Minha mãe, a beleza foi feita para as mulheres;  os homens só precisam ter inteligência e saber ganhar a vida". (1)

Procópio tem então 23 anos e quatro meses depois, em 23 de outubro, casa-se com Aída.

A instabilidade profissional e financeira marca emocionalmente o jovem Procópio.

Mas chega o ano de 1922. Em carta para um amigo ele escreve:

"Não quero mais morrer! Nasceu a primavera da minha vida. Ganhei uma filhinha de nome Abigail, a quem chamarei de Bibi. Ela vai cantar, representar e fazer muitas coisas bonitas em um palco.

 

Abigail Izquierdo Ferreira, Bibi, faz sua estréia teatral aos 24 dias de vida - a peça é "Manhãs de Sol", de autoria de seu padrinho, Oduvaldo Viana (pai), na época casado com a grande vedete e cantora Abigail Maia.

Entra no colo de sua madrinha, de quem herdou o nome, substituindo uma boneca que desaparecera pouco antes do início do espetáculo.

É o prenúncio de uma carreira cujo sucesso se mantém até hoje e honra o legado de seu pai.

O estreito convívio com a arte vem de seus ancestrais: o bisavô era cantor lírico, os avós eram circenses e a mãe, bailarina e cantora.

Bibi não sabe ao certo o dia em que nasceu.

Mãe aos 15 anos, Aída teve dificuldades no parto e dizia que ela nascera em 1º de junho. O pai falava que a data era 4 de junho, mas, sua certidão de nascimento traz a data de 10 de junho.

Um ano depois, Procópio separa-se de Aída, que vai trabalhar na Companhia Velasco, uma companhia de teatro de revista espanhola, onde a pequena Abigail vive até os quatro anos.

Seu primeiro idioma é o espanhol. A Companhia Velasco viaja a América Latina inteira e esta vivência desperta nela o gosto pela música - dança e canta o flamenco, participando dos desafios, prática comum entre as crianças da "troupe". A pequena Bibi, com apenas 3 anos, participa dos espetáculos da Companhia - fantasiada de pérola, "la niña de Velasco" (como fica conhecida) canta e dança zarzuelas, levando o público ao delírio.

O idioma português e o grande amor pela ópera ela aprende com o pai.

Procópio é então um ator de sucesso e Bibi, de volta ao Brasil, torna-se a atriz mirim mais festejada do Rio de Janeiro.

Nessa época, entra para o Corpo de Baile do Teatro Municipal, Rio de Janeiro, onde permanece por longo tempo, até estrear na Companhia de seu pai.

Conhece bem cedo as dificuldades inerentes à profissão: aos nove anos, é-lhe negada a matrícula, pelo Colégio Sion, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, por ser filha de um ator de teatro.

Bibi completa o curso secundário no Colégio Anglo Americano e aperfeiçoa os estudos de balé em Buenos Aires, Argentina, no Teatro Colón.

 

           

 

 

                                                

                                   

A carreira de Bibi não veio como herança natural de sua família.

Não pretendia ser atriz - queria estudar música, a sério.

Um revés financeiro, sofrido por Procópio, desviou-a deste caminho, levando-a ao teatro.

Procópio pediu e Aída, de quem se separara novamente, na esperança de uma nova reaproximação, consentiu.

Foi assim que, em 28 de fevereiro de 1941, aos 18 anos, Bibi pisou no palco pela primeira vez, profissionalmente, no papel de Mirandolina, na peça "La Locandiera".

A partir daí, não parou mais.

Após encenar inúmeras peças na Cia. Procópio Ferreira, Bibi, então com 23 anos, funda sua própria companhia teatral, onde atuaram figuras importantes como Cacilda Becker, Maria Della Costa e Henriette Morineau.

O sucesso acompanha Bibi em interpretações marcantes que vão dos clássicos teatrais às revistas e musicais, no Brasil e no exterior.

Mas, ela contabilizou também alguns insucessos e lembra com bom humor que na década de 50, "importou" dez dançarinas americanas, disposta a montar um super musical ("Escândalos 1950", Teatro Carlos Gomes - Rio de Janeiro). Os cachês eram muito altos e ela arcou com todas as despesas, inclusive passagens de avião. Um incêndio, ocorrido no teatro poucos dias depois da estréia, consumiu o investimento, deixando-a com uma dívida que levou cinco anos para saldar. Mas, o prejuízo não cessou aí - no mesmo teatro, estavam guardados todos os cenários e figurinos do repertório da Companhia de Comédias Bibi Ferreira...

A terrível experiência não abalou o ânimo de Bibi, que logo depois se lançou em novo empreendimento malsucedido: entusiasmada com o sucesso que a atriz Eva Tudor fizera em Portugal, resolveu aventurar-se, encenando uma série de comédias, ‘porcariazinhas’, como ela diz. A crítica foi implacável, pois, esperava que ela encenasse clássicos, mas, "fui de comedinha americana traduzida e me dei mal!"

O resultado da aventura foram três meses de fome e frio (ironicamente, estavam hospedados numa pensão, na Rua da Paz, cuja dona se chamava Felicidade) e Bibi ficou retida pela locadora até saldar a sua dívida.

Às vésperas de embarcar para o Brasil, a sorte mudou e ela recebeu uma oferta de trabalho, permanecendo em Portugal por quatro anos. A temporada, atuando em revistas e dirigindo, foi memorável.

"Sempre digo que sou uma otimista irresponsável! E é por isso que fiz tudo o que fiz na vida."

Durante longa e profícua carreira, Bibi tem feito de tudo um pouco.

É uma atriz completa, coisa rara em nossos dias. Canta, dança, atua, toca piano e violino, compõe, além de ser uma diretora de atores competentíssima e apresentadora de talento.

Em sua passagem pela televisão brasileira, comandou os programas "Brasil 60", que inaugurou a TV Excelsior, "Brasil 61" (líder de audiência) ,"Bibi sempre aos domingos " e atuou no Tele Teatro.

Na TV Tupi : "Bibi Especial", "Festival do Carnaval" e "Bibi ao Vivo", além do "Curso de Alfabetização para Adultos", pelo qual recebeu o prêmio de "Melhor Comunicadora", no grande Festival Internacional da Cultura em Tóquio.

Foi também a responsável pelo primeiro programa brasileiro transmitido via satélite, diretamente de Los Angeles - o Oscar 72, pela Rede Associada.

 

          

                                                  

      

 

Bibi colecionou sucessos estrondosos com premiados musicais: "My Fair Lady", em cartaz durante 3 anos, "Alô Dolly" e "O Homem de la Mancha", que inaugurou o Teatro Manchete.

Em "Gota d'Água", de Chico Buarque e Paulo Pontes, sua atuação foi antológica.

"Piaf, a vida de uma estrela da canção" foi outro marco em sua vida profissional. Espetáculo recordista de permanência e público, ficou quatro anos consecutivos em cartaz e excursionou por todo o país e exterior. A última apresentação de "Piaf" foi em Portugal, com elenco português. "Piaf" deu a Bibi Ferreira todos os prêmios do teatro brasileiro.

"Bibi in Concert" (1991) - Idealizado para uma temporada de apenas 3 dias, no Teatro João Caetano, Rio de Janeiro, permaneceu por 2 meses em cartaz, além de uma temporada no Canecão, seguindo-se uma tournée por todo o Brasil e a gravação de um especial para a TV Globo.

O espetáculo foi concebido por ela e começa de forma genial, com Bibi cantando trechos de árias famosas de Verdi e Rossini, com letras de sambas de Noel Rosa, Pixinguinha e outros compositores populares - uma mistura perfeita em sua irretocável e graciosa interpretação.

A própria Bibi conta: "Eu me lembro muito bem, era garota... Papai encontrava sempre numa frase, numa ária de uma ópera, o que ele tinha vontade de expressar naquele momento do seu cotidiano... Eu tinha paixão por ouvir tudo isso, ficava deslumbrada e queria imitar papai. Então pegava os discos, colocava na vitrola e ficava ouvindo aquelas óperas todas... Mas não conseguia entender nada. As letras eram todas em italiano, francês ou alemão... Foi aí que eu tive uma idéia - pegar letras de músicas nossas, que eu conhecia e encaixar nas árias das óperas de que eu gostava..."  O resultado, como se viu, foi delicioso!

"Bibi in Concert II - Entertainer " ( 1994) - "Orquestra de uma mulher só", exalta o jornalista Mauro Ferreira (jornal "O Globo"), ao comentar a estréia.

Em "Bibi in Concert II", Bibi atua como uma "entertainer", com a intenção de divertir o público. Misturando o clássico ao popular, inclui músicas inéditas de Caetano Veloso, Heckel Tavares, Cazuza, Ari Barroso, Bizet e Verdi. Destaque para o Bolero de Ravel, onde  apresenta o "canterondo", forma espanhola de canto, que descende do lamento árabe e soa com sotaque flamenco.

"Bibi canta e conta Piaf" (1995) - "Ela é a única intérprete capaz de reviver a emoção dramática de Piaf," afirmou o fotógrafo francês Hughes Vassal (que retratou a última fase de Piaf), ao ouvir a trilha sonora da peça, gravada por Bibi.

Esta emoção ela revive nos palcos, em um de seus maiores sucessos: o espetáculo "Bibi canta e conta Piaf".

Bibi criou um texto, que é lido por Gracindo Júnior, contando os principais momentos da vida de Piaf, entremeando as músicas que marcaram as diversas fases da cantora. Se estivesse viva, Piaf teria completado, em 1995, 80 anos.  

Com este recital, percorreu vários estados brasileiros e apresentou-se em Paris, França, em festejada estréia, em maio de 2000.

"Brasileiro, profissão esperança" (1997) - A montagem inicial , dirigida por Bibi Ferreira e encenada por Clara Nunes e Paulo Gracindo, foi record do Canecão, Rio de Janeiro, ficando 8 meses em cartaz .

Escrita por Paulo Pontes, fala de esperança, um tema recorrente na vida do brasileiro, através da música e da poesia. Gracindo Júnior empresta seu charme ao personagem que foi de seu pai, Paulo Gracindo, na primeira versão. À Bibi, além da direção, coube o papel que foi de Clara Nunes.

O espetáculo fez temporada no Metropolitan do Rio de Janeiro (hoje ATL Hall), no Teatro Tereza Rachel, em Copacabana, e foi apresentado em Miami, no Teatro Colony.

"Bibi vive Amália", espetáculo principal das comemorações dos 60 anos de carreira de Bibi, estreou no Rio de Janeiro, em 1° de junho de 2001 e já se tornou um marco na carreira da atriz. A impressionante performance de Bibi vem arrebatando platéias em todo o Brasil e em Portugal.

 

          

                                          

 

 

A incansável Bibi acumula inúmeros êxitos como diretora teatral.

Começou com a peça "Divórcio" (1948), na qual também contracenou com o pai.

Depois vieram "A Herdeira" e "Sonho de uma noite de luar", para citar apenas algumas.

Em Portugal, dirigiu Maria Della Costa em "Society em baby - doll", de Pongetti.

Maria Bethânia e Ítalo Rossi, Elizeth Cardoso e Baden Powell, Clara Nunes e Paulo Gracindo, Walmor Chagas, Marília Pera, Marco Nanini, Nathalia Timberg e Rosamaria Murtinho são apenas exemplos de grandes nomes que estiveram sob seu comando.

"Meno male", de Juca de Oliveira, "Na sauna", estrelada por Maitê Proença, a comédia inglesa "Não explica que complica", com Silvia Bandeira e Rubens de Falco – a lista de direções de sucesso é infindável.

Na década de 90, além dos seus próprios espetáculos, dirigiu "Sua excelência, o candidato", com Fúlvio Stefanini, "Na bagunça do meu coração", " Roque Santeiro" e as óperas "Carmen" e o "Rigolleto".

 "Qualquer gato vira-lata tem uma vida sexual mais saudável que a nossa", "Tango, bolero e cha cha cha", "Letti e Lotte" e "Conduzindo Miss Daisy" são os trabalhos mais recentes da diretora.

 


 

NOTA: Nas páginas "Em Cena 1","Em Cena 2" e Em Cena 3 deste site, você vai encontrar informações atualizadas sobre todos os trabalhos de Bibi Ferreira, como atriz e como diretora.

 

           

 

 

                                                                   

 

Bibi Ferreira não fala muito sobre si mesma.

De suas declarações e entrevistas ao longo dos anos, emerge uma mulher sensível, inteligente e culta, ora tímida, ora temperamental, dona de uma disciplina férrea - uma mescla irresistível de talento, paixão e humanidade.

Bibi assume sua timidez: "... bicho-do-mato, eu sou campeã olímpica nessa categoria. A sair, prefiro ficar em casa ouvindo música, tocando piano e assistindo a vídeos de bons comediantes, com quem aprendo muito."

Seis casamentos e um grande amor, Carlos Lage, seu primeiro marido.

Mas ela também amou Paulo Pontes: "Amei Paulo, mas, ele me fez sofrer muito. Era mulherengo, atrapalhado e tinha hábitos estranhos como gostar de uma comida que tinha acabado de ser feita, mas, que deveria vir à mesa já fria." E diz sobre a morte do jovem dramaturgo, aos 36 anos: "Foi a maior tragédia da minha vida".

Bibi é uma mulher quase metódica e cultiva hábitos saudáveis – não bebe, não fuma e segue uma rígida dieta alimentar.

Até hoje ela não dispensa cuidados profissionais para manter a voz e o corpo em plena forma: aos 80 anos, Bibi Ferreira exibe qualidades vocais excepcionais e uma disposição e vigor invejáveis.

A carreira artística ela sempre encarou sem diletantismo: "Faço por profissão e não por curtição".

Mas, é inegável que nasceu para o palco e nele se porta como se estivesse em casa – ela se envolve profundamente em todas as etapas da produção, daí a familiaridade com todo o ritual que envolve um espetáculo.

Exigente e detalhista, Bibi surpreende quando libera seu humor através de Claudina, uma personagem que criou há 40 anos e que aparece apenas para amigos íntimos e alguns atores que trabalham com ela.

Bibi imaginou uma criança de quatro anos, rica e afetada, que se hospeda no Copacabana Palace quando vem ao Rio. Claudina odeia teatro mas aparece sempre durante os ensaios em busca de guloseimas e de um ambiente propício à exibição de sua índole duvidosa.

Deolinda Vilhena (2) conta que, certa vez, durante um ensaio com Maria Bethânia, "Bibi se empolgou e encarnou Claudina. A cantora parou o ensaio e quis saber quem tinha levado uma criança. Bibi ficou calada"....

 

Esta é Bibi Ferreira, um talento completo, uma vida inteiramente dedicada à arte.

Na entrega do "Prêmio Sharp de Teatro - Ano Bibi Ferreira" (1996) Fernanda Montenegro encontrou as palavras certas para defini-la:

 

"Bibi, você sempre foi parte do meu Olimpo teatral. Desde quando eu ouvia você cantar na rádio Mayrink Veiga, desde sua estréia no teatro como Mirandolina, eu sonhei ser como você.

Eu sou testemunha de que foi clara, na nossa história teatral contemporânea, a importância dessa estréia e que o seu talento luminoso jamais teve que esperar para ombrear com o de seu pai, o grande Procópio.

Desde o primeiro minuto, você sempre foi a esplendorosa filha herdeira de toda uma geração de atores extraordinários, inesquecíveis, amados delirantemente por centenas de platéias em todo o Brasil; herdeira de Dulcina de Moraes, na afirmação de um projeto de modernidade para o nosso Teatro.

A partir dos anos 40 você se fez presente em todos os gêneros de espetáculo, dominando os nossos palcos como atriz, encenadora, iluminadora, produtora, cantora e com absoluto destaque, no cinema e na televisão.

Bibi, pelo grande mural de trabalhos realizados, pelas centenas de artistas, de colegas que estiveram sob seu comando, pela importância de sua presença em nossa vida cultural durante todos estes anos e principalmente pela fidelidade à sua vocação, você é o nosso maior referencial cênico.

Você, sem dúvida, é a nossa maior atriz, quer por sua vocação, por seu talento, quer por sua herança, por seu sangue.

E com humildade e orgulho, eu saúdo você, em nome do Prêmio Sharp e em nome de todos nós, nessa noite que é sua, por justiça.

Ave, Bibi querida! Nós, seus súditos, a saudamos com um grande, imenso obrigado!"

                                                                                           (Fernanda Montenegro)

                                                          

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Nota:

Os dados desta biografia foram meticulosamente pesquisados em entrevistas de Bibi Ferreira publicadas em jornais e revistas e em entrevistas concedidas pela atriz em vários programas televisivos.

 (1)   Extraído  do livro "Procópio Ferreira - O mágico da expressão" de Jalusa Barcellos.

(2) Deolinda Catarina França de Vilhena trabalhou como assessora de imprensa, administradora, produtora e primeira-secretária de Bibi Ferreira, entre março de 1981 e dezembro 1997. 

 

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Música: "Swanee" (de George Gershwin - musical "Bibi in concert")

 

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