5. Piaf - amores e tragédia

 

Quase um ano após a morte de Cerdan, ela voltou aos palcos, em Paris, cantando na famosa Salle Pleyel.

Foi quando conheceu Charles Aznavour, nessa época um jovem cantor em ascensão. Por intermédio de Piaf ele conseguiu seus primeiros contratos.

Aznavour escreveu uma série de sucessos para ela, entre eles: "Jezebel" e o lendário "Plus bleu que tes yeux".

Após Aznavour, houve uma série de casos de curta duração: mudava bastante o primeiro nome do "Monsieur Piaf", como os jornais chamavam, zombeteiros, quem ocupava, em dado momento, o posto de "amado" da cantora.

Esse "cargo" coube ao jovem Eddie Constantine, um cantor iniciante, a um atleta do ciclismo... sem falar nos impulsos de momento e nas aventuras "não oficiais".

A tragédia continuava presente na vida de Piaf.

Neste mesmo ano, 1951, ela sofreu dois sérios acidentes de automóvel, aos quais, surpreendentemente, conseguiu sobreviver.

Submetida à cirurgia para redução de fratura, recebeu novas injeções de morfina. Combinada com o crescente consumo de álcool, a droga começou a destruí-la, física e mentalmente.

Em julho de 1952 ela se casou com o cantor francês Jacques Pills, em cerimônia particular na Prefeitura de Paris.

Não houve tempo para festejos. Voaram para os EUA, onde Edith fazia a quinta turnê americana.

Mais tarde, em New York, ela finalmente teve o glorioso casamento na igreja com o qual tanto sonhara.

Enquanto Edith retornava ao famoso Versailles, Pills se apresentava em lugar de menor destaque, acompanhado por um jovem e promissor artista francês, Gilbert Bécaud.

Juntos, mais tarde, escreveriam outro grande sucesso de Piaf, "Je t'ai dans la peau". É também de Bécaud a magnífica canção "Bravo pour le clown", um desafio à sua perícia vocal e cênica.

A carreira continuava em ascensão internacional, mas, o álcool e as drogas vinham provocando grandes danos e a saúde de Piaf estava a cada dia mais frágil.

Numa clínica particular, ela se submeteu a um longo tratamento de desintoxicação, tentando libertar-se do álcool e da morfina.

A voz, no entanto, continuava magnífica!

São extraordinárias as gravações feitas em 1952 e 1953, assim como os concertos realizados nessa mesma época.

Os amigos mais íntimos não poupavam esforços para esconder da imprensa a miséria da vida pessoal de Piaf, tentando, ao mesmo tempo, fazer com que  ela se afastasse dos palcos.

Em 1955, ela apareceu triunfante, num show magnífico no L'Olympia de Paris.

A voz, ainda pura e poderosa, arrebatava o público, que a aplaudia de pé, dominado pela mais profunda emoção, ao final de cada espetáculo.

No mesmo ano, iniciou uma extenuante turnê pelos EUA, cujo ápice foi uma memorável apresentação de gala, no Carnegie Hall, em New York (1956).

Foi a primeira vez que uma cantora "variété" ocupou o palco do famoso "templo da música clássica".

Em janeiro de 1956, apresentou-se por toda a América Latina, durante quatro meses e meio.

Em maio retornou a Paris e em 10 dias estava de volta ao Olympia, com dois novos sucessos: "L'Homme à la moto" e "Les amants d'un jour".

Em fins de 56, após outra turnê pelos EUA, nova internação para desintoxicação. A terapia funcionou e ela nunca mais tocou em álcool, durante o resto de sua vida, mas os danos já eram irreversíveis.

Em 1958 , vamos encontrá-la no Olympia, pela terceira vez em sua carreira, para uma memorável série de concertos. Foi quando cantou, pela primeira vez, "La Foule", canção que trouxera da América do Sul, adaptada por Michel Rivgauche e que transformou em êxito internacional.

A temporada também produziu outro grande sucesso, "Mon manège à moi".

Mas, ainda havia tempo para o amor...

Desta vez, uma curta ligação com Douglas Davies, um pintor americano de 23 anos.

Após outro acidente de carro, ao descobri-la um ser humano mortal e dependente da morfina, ele fugiu.

Neste mesmo ano, Piaf começou outra relação amorosa, desta vez com o compositor francês Georges Moustaki (3).

 

 

Ele compôs muitos sucessos de Piaf, entre eles "Milord", canção escrita em colaboração com Marguerite Monnot, leal amiga de Piaf, e que seria seu primeiro sucesso no New Musical Express, a lista inglesa dos discos mais vendidos.

"Milord" também conquistou expressivo sucesso na Itália, Alemanha e Holanda.

 

Georges Moustaki

Estamos em setembro de 1958.

Piaf e Monnot sofreram um grave acidente de carro, o que debilitou, ainda mais, a saúde da cantora..

Poucos meses após, de volta ao palco, Piaf desmaiou no meio de um espetáculo em NY. Foi hospitalizada e submetida a uma cirurgia de emergência.

Indiferente aos conselhos dos médicos e amigos, Piaf se recusava a abandonar os palcos, embora voltasse a desmaiar em meio aos espetáculos, por repetidas vezes.

Em 1960, vamos encontrá-la ao lado do jovem compositor Charles Dumont, autor da canção de maior sucesso da carreira de Piaf : "Non, je ne regrette rien".

Na letra, onde faz uma reflexão sobre sua própria vida, ela estampou toda a sua emoção. Ao cantá-la pela primeira vez, em um grande concerto no Olympia, seu desempenho foi considerado um dos maiores de todos os tempos.

Theophanis Lamboukas, um jovem grego, cabeleireiro de senhoras num salão familiar, ela conheceu no verão de 1961. Edith sempre apreciou rapazes com sensibilidade feminina.

No final do inverno, internada no Hospital Ambroise Paré com broncopneumonia, Edith recebeu a visita de Théo. Ele presenteou-a com uma boneca grega e o gesto emocionou Edith.

Ao deixar o hospital, ela passou a ensinar o jovem a cantar e lhe deu um nome artístico, Sarapo, que em grego significa "eu te amo".

A juventude e vitalidade de Théo despertaram em Piaf um novo ânimo e ela voltou ao trabalho e às gravações.

Sarapo foi seu último marido e também seu último pupilo.

Juntos gravaram "A quoi ça sert l'amour", que vendeu inúmeros discos, em meio à onda do ie-ie-ie.

Estamos em julho de 1961.

A crítica francesa concedeu à Piaf o "Prix du disque de l'Académie Charles-Cros", por sua importante contribuição à música francesa.

Setembro de 1962: Piaf retornou ao tradicional Olympia de Paris, para sua última série de concertos naquela casa.

Em 25 de setembro, compareceu, como convidada de honra, à estréia internacional do filme "O mais longo dos dias" (The longest day ).

Nessa ocasião, cantou seus maiores sucessos, aplaudida por um público numeroso que incluía personalidades de todas as esferas sociais.

Dias após, 9 de outubro, casou-se com Théo Sarapo, numa cerimônia ortodoxa particular.

Piaf estava com 46 anos e Théo com 23.

 

 

 

Comentários acerca da diferença de idade não faltavam, ao que Piaf respondeu, certa vez, com bom humor:

"Aí está: com freqüência, fui censurada por estar mal penteada. Uma vez que me apaixonei por um rapaz cabeleireiro, eu não ia perder tal oportunidade".....e concluiu: "Não se pode exigir que Piaf siga determinada lógica. Amo Théo, Théo me ama, nós nos amamos, esta é a única lógica que eu conheço, é o único verbo que eu sei conjugar de cor e em todos os tempos e é por isso que vamos casar".

Mas, a realidade era diferente: segundo Louis Barrier , testemunha do casamento, ela queria recuar, mas, rendeu-se ao argumento de que o público interpretaria sua desistência como uma manifestação de seu temperamento instável.

"Tanto tempo depois, não acredito estar magoando ninguém ao divulgar que, entre ela e Théo, já não havia mais nada. ‘ No que me diz respeito, está acabado há um bom tempo’ confessara para mim. Ela se casou porque diante da imprensa, diante do público e talvez também diante de Théo, que ela arrastara para esse negócio, era demasiadamente tarde para recuar".(7)

Fevereiro de 1963 - o cenário musical era muito diferente daquele que Piaf conhecera .

Não era fácil, para os artistas que se consagraram antes dos anos 60, vender seus discos e encontrar sucessos, já que os autores e compositores davam preferência aos cantores mais novos.

Com Piaf não foi diferente.

Numa espécie de jogo mórbido, ela alimentava os jornais com entrevistas sensacionalistas pelas quais cobrava muito caro e onde expunha, como em desafio, sua própria decadência, sua "morte ao vivo".

Talvez precisasse de dinheiro. Talvez estivesse apenas satisfazendo uma desconcertante inclinação para a provocação...

Março de 1963 : nos últimos dois dias do mês, Edith e Théo se apresentaram no famoso palco da Ópera de Lille.

Triste surpresa: a grande Piaf, resfriada, cantou diante de um público reduzido, "decepção e afronta que não pode ser explicada, por si só, pela greve de transportes coletivos que paralisava a capital do norte do país. E que tristeza suplementar, se ela tivesse sabido que era ali e dessa maneira que se apresentava o ato final de sua carreira"....(8)

De volta a Paris, o médico prescreveu descanso.

Piaf estava sem forças, mas, mesmo assim, não cancelou a turnée pela Alemanha, apesar dos conselhos profissionais.

Em 7 de abril ela apresentou uma ligeira melhora e ensaiou "L'Homme de Berlin", uma canção feita para a Alemanha.

Mas, a 10 de abril, chegou, semi-inconsciente, à Clínica Ambroise-Paré de Neuilly-sur-Seine.

Quarenta e oito horas após a internação, Piaf mergulhou em coma hepático. Durante as semanas seguintes, o marido e a enfermeira testemunharam longos delírios.

"Entre a vida e a morte, Edith Gassion canta ainda as melodias do tempo recente em que era Piaf".

Frágil, convalescente, mas impulsionada por um instinto de conservação fora do comum, ela saiu do hospital e passou uma temporada no litoral, em Cap Ferrat, instalada em La Serena, uma mansão com vinte e cinco cômodos, piscina e praia, alugada por 50 mil francos, por um período de 2 meses.

No final de junho, entrou novamente em coma hepático.

Vencida a crise, ela se sentia muito fraca, mas, manifestou intenso desejo de rever aqueles com quem convivera ao longo de sua carreira.

Jacques Bourgeat, Henri Contet, Michel Émer, Raymond Asso, Charles Aznavour, todos atenderam ao seu chamado.

Em 1° de agosto, Edith e seu séquito partiram para a Gatounière, menos ampla, menos dispendiosa e - recomendação médica por causa do reumatismo - mais afastada do mar.

Seguiu-se nova internação e mais tratamentos.

Como medida de economia, Edith transferiu-se para Enclos de la Rorrée, uma herdade de Plascassier, no planalto de Grasse. Com ela ficaram somente o casal Bonel (Marc Bonel que foi seu acordeonista e sua esposa, Danièle Bonel, ex-secretária e governanta da casa de Piaf), a enfermeira e o marido.

Uma cura estava fora de cogitação. O fígado estava por demais enfraquecido e ela pesava apenas 34 quilos.

Aos quarenta e oito anos, Piaf aparentava ter mais de sessenta - a vida desregrada, as doenças e muito sofrimento haviam lhe cobrado um alto preço.

Na quarta-feira, 9 de outubro, dia do aniversário de casamento com Sarapo, vertigens e calafrios obrigaram-na a ficar na cama até a hora do almoço.

Voltou a deitar-se pouco depois, e não voltaria a descer mais...

Clique para acessar a última parte da biografia.6. Edith Piaf - o fim
Clique para voltar ao início da biografia. Voltar:  1.Infância  2. Adolescência
Clique para voltar a terceira parte da biografia Voltar: 3. "La Môme Piaf"
Clique para voltar a parte quatro da biografia.Voltar: 4. Edith Piaf - sucesso e amor

(7) (8) "Piaf Biografia" - Pierre Duclos e Georges Marin – Ed. Civilização Brasileira

(3) Quando Bibi Ferreira, a grande dama do teatro brasileiro e inigualável intérprete de Piaf, se apresentou em Paris, em julho de 2000, Georges Moustaki, o autor de "La Foule", esteve presente na platéia.


 

Fale comigo!

 

    Suas impressões 

 

 

 

Música: "Mon Dieu" - voz de Edith Piaf)

 

Todo o material encontrado em "Bibi Ferreira e Edith Piaf" foi cedido, criado ou pesquisado  para uso restrito (e sem fins lucrativos) no site acima citado. É proibida a retirada ou reprodução de  qualquer material escrito ou fotografado, assim como de elementos gráficos concebidos com exclusividade para essas páginas. Todavia, se eventualmente for encontrado algum material que possa ser identificado por terceiros, daremos o crédito devido, mediante comunicado e apresentação das devidas provas.

Copyright © 2001 by bibi-piaf.com ® 

Todos os direitos reservados